Por que nascemos?
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O último dia de Pompeia, por Karl Bryullov |
Por que nascemos? Nascemos porque nossos pais procriaram. Em tese, não haveria muito mais a ser dito. Poderia encerrar este texto aqui, mas não. Continuarei a escrever, porque, já que nasci sem que pudesse ser consultado, visto que eu não existia antes da minha concepção, sinto-me no direito de julgar a vida agora que estou velho. E pouco importa que a minha situação não esteja entre as piores enfrentadas por seres sensíveis ao longo da história natural, o direito continua existindo. Direito não, o dever sagrado de avaliar as coisas, que todos temos e praticamos o tempo todo, até mesmo os que acreditam que se abstêm de fazer julgamentos.
Meus pais também foram colocados no mundo da mesma forma, sem que pudessem ser consultados, e em situações bem piores que a minha. Minha mãe nasceu numa cidadezinha no nordeste de Minas, colada na Bahia, filha de pais do interior baiano, no final da década de 1950. Foi criada no interior da Bahia e depois mudou-se para Salvador, onde acabaria conhecendo meu pai, que morou lá no início de sua carreira. Já meu pai nasceu em São Paulo em meados da década de 1950, filho de mãe grega e pai polonês que haviam chegado ao Brasil no ano anterior, fugindo da miséria e opressão causadas por conflitos civis e ditaduras na Europa pós-Segunda Guerra Mundial.
Um detalhe diferente antes do meu nascimento ou antes do nascimento dos meus pais e nós nunca teríamos existido. Se um determinado tirano austríaco tivesse conseguido entrar na Academia de Belas Artes de Viena, meus avós paternos não teriam se conhecido, meu pai não teria nascido e nem eu. Nossa existência depende até mesmo do momento exato em que ocorre a concepção, já que segundos depois implicariam um perfil genético diferente, o que significa dizer que seríamos pessoas diferentes. Sêneca escreveu o seguinte numa de suas cartas para Lucílio:
O acaso tem necessariamente um grande poder em nossas vidas, pois é pelo acaso que estamos vivos.
Quando Sêneca fala do “acaso” aqui, ele não fala de um universo reinado pelo indeterminismo, nem pela total liberdade dos agentes — até porque Sêneca, como qualquer outro filósofo estoico, era determinista. Acaso aqui apenas significa algo que não pôde ser previsto com exatidão; significa incerteza, seja ela de maior ou menor grau. É no meio das incertezas que as nossas ações contribuem para que o que quer tenha sido determinado por causas anteriores venha a acontecer. Entretanto, independentemente se aceitamos o estoicismo ou não com respeito ao determinismo, há coisas que podemos ter plena certeza. Sobre elas, falarei um pouco mais adiante.
É estranho pensar que, se houvesse uma pequena diferença nos acontecimentos passados, nenhum de nós estaria aqui. Os venusianos e jovianos inexistentes são os que tiveram a maior sorte, seus planetas foram incapazes de sustentar vida. Já o nosso era do tamanho certo, ficou a uma distância certa do Sol e teve os compostos químicos certos para o surgimento da vida, que brotou aqui e nunca mais parou de se multiplicar, infelizmente. Dado o acaso de estarmos vivos, só nos resta aturarmos a existência como ela é ou lamentá-la.
Lamentar não adianta muito, admito. Mas você estaria enganado se pensasse que só pessimistas lamentam a existência. Parte considerável dos humanos ao longo de nossa breve história na Terra lamentaram sua condição. Até mesmo muitos dos que defenderam a manutenção da espécie humana e a nossa expansão para as estrelas lamentaram o seu quinhão, de certa forma. Afinal, se a maioria de nós estivesse realmente satisfeita desde o começo, jamais teríamos saído da savana há dezenas de milhares de anos atrás. Estávamos tão insatisfeitos com nossas vidas que nos espalhamos para todos os continentes ainda na pré-história.
Só viver nunca bastou ao ser humano. Temos que agradecer a consciência por isso. Ela, que é a nossa maldição, também é fruto do acaso natural. Por 165 milhões de anos, os dinossauros reinaram no topo da cadeia alimentar do planeta. Porém, há 66 milhões de anos atrás, um asteroide de mais de 10 quilômetros de diâmetro colidiu com a Terra, extinguindo a maioria das espécies, principalmente os grandes animais, aqueles que necessitavam de mais nutrientes para sobreviver. Isso abriu espaço para os nossos pequenos ancestrais mamíferos se desenvolverem e dominarem o mundo.
Num certo momento, uma dessas espécies começou a acordar do eterno presente no qual habitam os outros animais, nossos irmãos. Foi o despertar da consciência humana, que amaldiçoou a espécie com a lucidez. A seleção natural escolheu indivíduos cada vez mais conscientes de si, conscientes do passado, presente e futuro. Esse foi o nosso nascimento, num sentido coletivo. Não há muito mistério, embora não entendamos alguns dos pormenores. Do acaso da abiogênese, até o acaso das diversas extinções em massa que permitiram o surgimento de novos seres sensíveis, sendo o humano um deles. E aqui nós estamos, nesta fossa, graças a acasos que, na verdade, foram determinados por causas anteriores. Acasos predestinados.
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Independentemente do que façamos, porém, este estado das coisas no qual estamos não vai durar. Chegará um dia que seguiremos o caminho dos fósseis que expomos em museus. Por conta da nossa incapacidade de prever todas as coisas de forma precisa, não temos muitas certezas, é verdade. Porém, uma das certezas que podemos ter nesta existência é que todas as coisas perecíveis, um dia, perecem. Pode ser difícil precisar como ou quando, mas perecem, e acaso nenhum as tornará imperecíveis, acaso nenhum fará de nós deuses imortais. Ao que parece, o próprio universo perecerá no futuro longínquo, graças à entropia.
Mas a sua palavra passará, sim. Os netos dos nossos netos um dia morrerão. A raça humana deixará de existir, de um jeito ou de outro, como toda espécie de ser vivo. Num certo momento do futuro, toda a vida vai deixar de existir neste oásis de sofrimento que chamamos de Terra, oásis esse que se encontra no meio de um espaço infinito e estéril. É claro que verdades universais e necessárias, se elas existem mesmo, continuarão sendo verdades. Nesse sentido, e somente nesse sentido, podemos dizer que certas coisas nunca deixarão de existir, mesmo quando a última estrela do universo se apagar.
Verdades necessárias e universais como, por exemplo, a de que um triângulo possui três lados, ou a de que a existência machuca todos os seres sensíveis, enquanto que a não-existência não machuca ninguém. Só que, um dia, quando a raça humana deixar de existir, não haverá ninguém para saber dessas verdades. Exceto se, em algum lugar do cosmos, surgir uma outra espécie de ser sensível complexa o suficiente para ser capaz de entender o mundo ao seu redor e buscar respostas para tudo, assim como nós temos feito. Mas até esses possíveis seres morrerão e deixarão de existir, deixando só o silêncio para trás.
Porém, esse silêncio final vai demorar para chegar, se é que ele será realmente o fim de tudo e não apenas o prelúdio de um recomeço. Antes dele, haverá mais do que tempo suficiente para uma quantidade quase que inimaginável de sofrimento. Enquanto existirem seres sensíveis, enquanto eles todos não perecerem numa última extinção universal, haverá dor, pelo menos de algum tipo. E enquanto houver ao menos um ser que, além de senciente, é consciente, haverá o entendimento da dor. Em Parerga e Paralipomena, Schopenhauer escreveu o seguinte:
Se o sofrimento não é o primeiro e imediato objeto de nossa vida, então nossa existência é a coisa mais inconveniente e inapropriada do mundo. Pois é absurdo supor que a dor infinita, que abunda em todo lugar no mundo e brota da carência e miséria essenciais à vida, possa ser sem propósito e puramente acidental. Nossa suscetibilidade para a dor é quase infinita; mas para o prazer tem limites estreitos. É verdade que cada pedaço separado de infortúnio parece ser uma exceção, mas o infortúnio em geral é a regra.
Por que nascemos, então? Nascemos para sofrer. Essa é uma outra certeza do mundo do devir, o mundo físico. Nele, não há estabilidade. A única regra é a eterna mudança de um estado a outro. Todo começo implica um fim, e todo processo de mudança se dá através do sofrimento, para o azar das criaturas sensíveis. Daí a preferência pelo vegetal ou, melhor ainda, pelo mineral, expressada por alguns pensadores considerados mais sombrios. Mas eles não são sombrios por mero gosto, eles o são por serem demasiadamente lúcidos. É a lucidez que traz o horror da realidade ou do destino, o horror fati, termo cunhado por Julio Cabrera para se contrapor ao amor fati nietzscheano.
Não é todos os dias que descobrimos fazer parte de uma grande história de terror cósmico. Nessa história, somos marionetes de uma força invisível que permeia tudo, uma entidade brutal e irônica, que ri dos planos dos homens e de suas fantasias. O pior de tudo é que não temos a menor possibilidade de escapar dela. A única forma de não participar do grande e horripilante épico da existência é não ser gerado e trazido ao mundo, algo que está para além do alcance de todos os que já estão aqui. Podemos até contribuir aqui e ali para não multiplicarmos a dor, mas a maior consolação de todas vem através do conhecimento de que, provavelmente, tudo um dia perecerá, até mesmo o cosmos.
Pelo menos assim espero.
por Fernando Olszewski