O Deus da Carnificina

O sacrifício de Isaque, de Caravaggio

Há alguns dias atrás, um pai jogou seu filho de uma ponte como vingança contra a ex-mulher. A princípio, segundo algumas reportagens, ele queria tirar a vida da ex-mulher e seu novo namorado, mas, por alguma razão, decidiu matar o próprio filho para atingir a ex. Provavelmente covardia de enfrentar dois adultos. Após o homicídio, ele enviou um áudio para a ex-mulher dizendo que cometeu uma “loucurinha”. O caso aconteceu no Rio Grande do Sul. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo, pelo visto. É tão comum que acabo esquecendo até o momento em que outro caso aparece na mídia.

O caso me fez lembrar de outro, similar, ocorrido há poucos anos atrás, também no Rio Grande do Sul, que por sorte não terminou em morte. Uma mãe enviou mensagem de vídeo para o ex-marido de dentro do carro dizendo que ia se matar junto com a filha pequena — tudo isso enquanto a filha chorava no banco de trás e tentava articular, com o seu vocabulário infantil, que não queria aquilo. Depois da mensagem, a mulher bateu com o carro em alta velocidade de propósito em outro veículo. Não houve vítimas fatais e hoje ela está presa.

É muito mais comum do que pensamos que pais e mães matem seus filhos. Aliás, de longe o maior perigo para crianças pequenas são pessoas próximas e confiáveis, como pais, mães, tios, tias, primos, primas, além de padres e pastores, que figuram desproporcionalmente entre abusadores condenados pela justiça em vários países. Podemos até dizer que a violência contra crianças faz parte da história humana e seus diversos mitos constitutivos. É sabido que a prática de sacrifícios de crianças existia entre alguns grupos israelitas na Antiguidade e as diversas passagens bíblicas proibindo a prática vieram após reformas religiosas feitas sob o rei Josias, no século VII a.C., e após o exílio babilônico dos judeus.

A prática religiosa de pais sacrificarem o primeiro filho era comum na região do Mediterrâneo, como atestado por fontes gregas, romanas e hebraicas, além de haver ampla evidência arqueológica. Além dos hebreus, ela ocorria entre os fenícios e cartaginenses. A ideia do sacrifício do primeiro filho é, inclusive, aceita e depois rejeitada por Deus em partes diferentes do Antigo Testamento. Por exemplo, há um crescente consenso acadêmico de que a narrativa bíblica do sacrifício Isaque por Abraão é uma revisão e que, originalmente, o sacrifício de fato ocorria no texto. Só mais tarde é que o mito teria, aos poucos, mudado de forma a mostrar que Deus era contra o sacrifício de crianças. 

Já a ideia de sacrifício do primogênito como forma de limpar os próprios pecados é trazida no Antigo Testamento na proibição proclamada pelo profeta Miqueias. Com o tempo, a substituição do sacrifício humano pelo sacrifício de animais tornou-se a norma. Mas essa ideia retornaria com o principal sacrifício humano contido na Bíblia: o sacrifício de Jesus, o filho de Deus, na cruz, que na mitologia cristã do Novo Testamento serviu para limpar o pecado de todos os humanos que acreditassem nele e se arrependessem. Para além do sacrifício como forma de limpar pecados, o Antigo Testamento também traz o exemplo do juiz Jefté, que sacrificou sua filha a Yahweh como forma de agradecimento por ter ganhado uma batalha contra os amonitas.

A história do sacrifício de Jefté passou a ser interpretada como uma espécie de alerta contra juramentos, visto que Jefté havia jurado para Deus que sacrificaria a primeira coisa que saísse de sua porta caso vencesse a batalha contra os amonitas. A primeira coisa que saiu da porta de sua casa foi sua filha, que veio recebé-lo feliz pela vitória. Acontece que Yahweh e a Bíblia em nenhum momento condenam Jefté pelo ato, o que demonstra que tal prática de sacrifício humano em homenagem ao Deus de Israel era, no mínimo, aceitável em determinados contextos e num determinado período da Antiguidade.

Saindo do Mediterrâneo e do Oriente Médio, sacrifícios religiosos de crianças e adultos também foram amplamente praticados nas Américas por civilizações e culturas pré-colombianas, como atestado pelos próprios nativos, além do testemunho dos colonizadores. Assim como no caso dos cartagineses, fenícios e hebreus, há também uma ampla gama de registros arqueológicos que atestam a veracidade da prática nas Américas. No caso específico das crianças, em todas as culturas nas quais sacrifícios ocorriam, os pais aceitavam e participavam de alguma forma do ritual, fosse nas Américas, fosse no Mediterrâneo e Oriente Médio.

Em todos os casos, a crença era de que seus filhos continuariam a existir de alguma forma. Além do que, caso o sacrifício ritualístico de um filho proporcionasse — pelo menos na cabeça de todos os membros daquela sociedade — outros filhos saudáveis aos pais, além de boas safras, paz e prosperidade no futuro próximo, isso era motivo de felicidade para todos, ainda mais numa época em que a mortalidade infantil chegava ou até passava da metade de todos os nascidos. É uma lógica bizarra para nós no século XXI, sim, mas na mente desses povos fazia perfeito sentido. 

O problema é que eles eram ignorantes e não sabiam que estavam matando seus filhos de formas brutais a troco de nada, já que não havia nenhuma divindade a ser apaziguada, nenhum mundo sobrenatural a ser contemplado, nenhum pecado a ser limpado. A não ser que levemos em conta hipóteses como as de Georges Bataille, para quem, em todas as culturas, atos de sacrifício, inclusive humano, servem para eliminar o excesso de energia que há em tudo e cujo destino é ser desperdiçado de algum modo. Ele chama esse excesso de “parte maldita”. Porém, não era exatamente com isso em mente que os pais davam seus filhos às chamas ou ao corte. Em A Parte Maldita, Bataille escreve:

[...] assim como o herbívoro é, em relação à planta, um luxo — o carnívoro em relação ao herbívoro —, o homem é, de todos os seres vivos, o mais apto a consumir, intensamente, luxuosamente, o excedente de energia que a pressão da vida propõe a incandescências conformes à origem solar de seu movimento.

Mais adiante na mesma obra, ele escreve o seguinte:

A vítima é um excedente retirado da massa da riqueza útil. E ela só pode ser retirada para ser consumida sem lucro, consequentemente destruída para sempre. Ela é, a partir do momento em que é escolhida, a parte maldita, prometida à consumação violenta. Contudo, a maldição arranca-a à ordem das coisas; torna reconhecível seu rosto, que irradia, a partir de então, a intimidade, a angústia, a profundidade dos seres vivos.

Mas, diferentemente da ausência literal dos deuses e do sobrenatural ao qual os antigos acreditavam sacrificar suas vítimas, ao menos a ideia de Bataille incorpora uma necessidade intrínseca à própria vida: a eliminação de um excesso de energia que não poderia ser utilizada na economia restrita. Segundo ele, a economia restrita é aquela na qual as relações de produção e trocas que são baseadas na utilidade daquilo que é produzido e no princípio da escassez; ou seja, é a economia política e as suas teorias diversas, tal como a conhecemos. Mas há outra economia, a economia geral, segundo Bataille. Nela, não há uma escassez, mas um excesso de energia que acaba necessariamente sendo desperdiçado de algum modo.

As sociedades industriais contemporâneas, ao negarem isso, promovem o eterno acúmulo e a ideia de crescimento infinito, que é impossível. Elas acabam, querendo ou não, sacrificando as pessoas não em rituais coletivos que visam tocar o sagrado, mas de maneiras profanas, como em guerras, conflitos diversos, exploração de classe e violências difusas. Do ponto de vista de Bataille, os antigos não eram melhores do que nós num sentido romântico, eles apenas tinham uma relação mais honesta com a necessidade de dispêndio da parte maldita, necessidade que era extravasada muitas vezes com o intuito de tocar o sagrado através de festivais, rituais e sacrifício — incluindo o sacrifício de pessoas.

Esse excesso não se reduz ao humano, mas está presente na própria ontologia do universo material, na concepção de Bataille. Há uma abundância no mundo material que não pode ser contida e precisa ser extravasada. Como exemplo básico, basta pensarmos no Sol: ele irradia muito mais energia que se perde na vastidão do cosmos do que é absorvida por seres vivos na Terra. Esse é o cerne da questão para ele. No caso do ser humano, para Bataille, o advento da consciência nos separou do eterno presente no qual vivem os outros seres vivos, que são imanentes ao seu redor. Nisso, ele me lembra bastante de Cioran e de Zapffe. Para Bataille, a vontade de se aproximar do sagrado seria justamente a necessidade inconsciente que sentimos de nos reconectar, mesmo que por alguns instantes, com a imanência perdida na qual se encontram os outros seres vivos.

Bataille é mais próximo de Nietzsche no que diz respeito à vida, já que, diferentemente de Schopenhauer, ele não a rejeita, nem promove o ascetismo como o grande ideal moral, pelo contrário. Mas é de se notar a ideia de que, para Bataille, há uma abundância de energia que necessariamente precisa ser gasta de maneiras consideradas improdutivas pela chamada economia restrita. Ela pode ser gasta através do ato sexual não reprodutivo, da arte, do sacrifício, da economia dos presentes, ou através de atos transgressores em geral. Caso uma sociedade não esteja organizada de tal maneira que o dispêndio da parte maldita seja realizado através de uma forma apropriada, ele ocorrerá eventualmente de forma profana através da guerra, da exploração e, também, da violência nossa de cada dia. 

Diferentemente de Bataille, que é radicalmente materialista, o idealista Schopenhauer considera Vontade como o chão metafísico que sustenta o mundo empírico. Tudo que vemos é expressão dessa única Vontade, que é infinita e atemporal. Nós mesmos somos expressões dela, somos suas marionetes em certo sentido. A Vontade nunca está satisfeita, portanto todas as suas representações nunca estão satisfeitas. É por isso que Schopenhauer escreve que a vida é como um pêndulo entre a dor e o tédio, sendo o prazer, a satisfação e a felicidade os momentos fugazes entre esses dois extremos do pêndulo. Sim, há uma fonte abundante de vida, mas, na concepção de Schopenhauer, a dor causada por ela é motivo de lamento e, também, motivo para rejeitarmos a própria existência.

É na interseção do pensamento de ambos que enxergo a tragédia e o horror da carnificina que promovemos uns contra os outros. Por um lado, há sim algo único que separa a violência cometida pelo homem daquela que é cometida pelos outros animais e pela natureza em geral, inclusive a “violência” natural do envelhecimento, doença e morte. Por outro, há uma continuidade entre o mal natural e o mal cometido pelo homem. Afinal, somos filhos da natureza tanto quanto os mais eficazes predadores. Tornamo-nos mestres em infligir dor muito além de qualquer bando de leões que devoram vivas suas presas. Mas eles, ao menos, têm a desculpa de não saberem o que fazem. Nós sabemos e mesmo assim fazemos — ou, como alguém como Bataille diria, sabemos e temos a necessidade de fazer.

E, falando em carnificina, na nossa sociedade nenhuma carnificina nos deixa mais horrorizados do que aquela cometida contra crianças. Sim, é triste quando o mal natural, como doenças, atingem crianças, mas quando a violência humana as toca, em especial quando elas são destroçadas, somos levados ao paroxismo da indignação e do terror. Enquanto que diversas sociedades antigas sacralizavam e ritualizavam as suas mortes, algo que consideramos bárbaro — na minha opinião, com razão — o mundo contemporâneo apenas barbariza elas sem a menor justificativa. Nesse sentido, e somente nesse sentido, não tenho como não concordar com Bataille sobre a diferença entre o dispêndio sagrado e profano da vida humana.

Nos últimos anos, graças a uma nova atenção gerada em torno do caso das crianças desaparecidas de Guaratuba no início da década de 1990, no litoral do estado do Paraná, voltou às mentes de muitos brasileiros o horror do assassinato do menino Evandro Ramos Caetano, de 6 anos. Seu corpo foi encontrado numa mata escalpelado, sem as mãos, sem os dedos dos pés, com a barriga e torso abertos e sem a maioria dos órgãos internos. Enfim, ele estava estraçalhado. Na época, 7 pessoas foram acusadas e condenadas pelo homicídio, que teria ocorrido num ritual de satanismo. Hoje, graças principalmente ao trabalho de jornalismo investigativo de Ivan Mizanzuk, sabe-se que os acusados foram torturados e obrigados a confessar. Eles foram finalmente exonerados pela justiça em 2023.

Além de Evandro, também foi encontrado a ossada de outro menino, Leandro Bossi, desaparecido dois meses antes, também em Guaratuba, e também sem as mãos e sem os dedos dos pés. Poucos anos antes, em 1989, na mesma região, o corpo de uma menina de 11 anos chamada Sandra foi encontrado numa mata. Ela estava escalpelada, sem as mãos e sem os dedos dos pés. A investigação jornalística mais recente aponta as similaridades dos casos e o provável envolvimento de um único maníaco sádico. É improvável que ele conhecia todas as famílias das vítimas, visto que nenhuma das famílias conhecia umas as outras, mas não deixa de ser algo que certamente teria interessado Bataille, que era fascinado pelo caso de Gilles de Rais.

Gilles de Rais foi um marechal da França durante a Guerra dos Cem Anos e lutou ao lado de Joana D'Arc contra os ingleses. Nobre, ele tinha castelo, e atraiu dezenas de crianças da região que desapareceram dentro de suas muralhas. Soube-se, depois, que ele as mutilava e assassinava por prazer, com o auxílio de ao menos dois de seus serventes. A crueldade com que praticou os crimes, que ele confessou sem a necessidade de tortura comum à época, é chocante até os dias de hoje. Ele e seus dois serventes foram condenados à morte e executados no ano de 1440.

Sim, pode mesmo ser que exista uma parte maldita que sempre é destinada ao dispêndio de uma forma ou de outra, como afirma Bataille. Pode ser, também, que a destruição pela violência de vidas humanas pelas mãos de outros humanos, de maneira sagrada ou profana, seja uma das expressões que esse tipo de destruição deve tomar eventualmente, queiramos ou não. Mas isso não nos impede de ficarmos espantados com essas coisas, não nos tira o direito de rejeitarmos todos esses horrores, como implica o pensamento de Schopenhauer, Cioran, Zapffe, Cabrera e tantos outros rejeitadores da existência. Em As Lágrimas de Eros, Bataille escreveu:

Este mundo é um mundo de sacrifícios sangrentos.

Ele se refere aqui aos sacrifícios feitos de animais no vodu, mas essa obra também trata do sacrifício humano em diversas culturas, em especial a capacidade do soberano de ordenar a morte de outros, inclusive através de métodos horrendos. Pouco depois de falar sobre o vodu, ele trata da famosa execução chinesa língchí, ou morte por mil cortes, onde os executores arrancam a pele do condenado lentamente com o auxílio de facas. O livro inclusive mostra uma série de fotos famosas, tiradas de um criminoso que foi executado dessa maneira em 1905. Entretanto, penso que podemos alargar o pensamento de Bataille sobre a necessidade de dispêndio da parte maldita: o mundo, na verdade, pede sofrimento de todos os seres sensíveis, em maior ou menor escala.

Não é apenas o mundo do sacrifício de animais por parte de humanos, ou o mundo da morte de humanos pelas mãos de outros humanos que podemos considerar como um mundo de sacrifícios sangrentos. Toda a vida sensível vive sob essa condição desde que surgiu. Porém, é verdade que nós, humanos, conseguimos piorar o que já era muito ruim. De qualquer forma, entretanto, é como se a realidade fosse toda ela divina, somos todos parte de Deus, como pensava Espinosa. Esse Deus, porém, não é elegante e perfeitamente racional de uma maneira que nos apetece. Ele parece exigir, desde sempre, uma enorme carnificina. As lágrimas de todos aqueles que sofrem nutrem Deus, especialmente as lágrimas dos mais vulneráveis.


por Fernando Olszewski